Na minha infância as fotografias tinham sabor…

Na rua da minha infância morava um fotógrafo.  Morava no último andar de um prédio do outro lado da rua. Tinha um carro moderno, verde metalizado e tenho a imagem exacta de o ver estacionar em frente à porta, ao final do dia… às vezes chegava tarde, talvez por qualquer trabalho de um casamento. Não sei a marca do carro mas era bonito e moderno.

“O Fotógrafo”, como era chamado na nossa privacidade, era alto e para mim, elegante. O meu conceito de elegância, na altura, era decididamente muito limitado porque me recordo muito claramente de que tinha uma proeminente barriga. O meu conceito de elegância cingia-se,  naquele caso concreto, ao uso de gravata. Usava sempre uma gravata escura, sobre uma camisa branca, mas o casaco vinha sempre despido, pendurado no banco de trás. 

Naquela altura e no meu bairro, um bairro moderno mas subúrbio, de classe operária, não se viam muitas gravatas, não ao dia de semana para trabalhar e por isso, para mim, o “fotógrafo”, ou o “vizinho fotógrafo”  era elegante. Na maioria das vezes chegava com a mulher também ela elegante neste mesmo meu ingénuo conceito. Tinham um negócio familiar não muito longe dali, mas pouco recordo dessa loja, porque quando precisávamos de revelar um rolo, entregávamo-lo em casa.

Nesse dia descia do nosso terceiro andar e subia ao dele, logo depois de o ver chegar, e educadamente pedia que levasse o rolo para revelar.

A partir desse dia, controlava diariamente a sua chegada apesar de saber que demoraria em revelar, de duas a três semanas.

A ansiedade crescia proporcional ao passar dos dias. Sabia exactamente a que horas chegava, e nunca sempre à mesma hora… e às vezes muito depois da hora de jantar…
À medida que o dia se aproximava, o fotógrafo parecia chegar cada vez mais tarde e como a minha mãe dizia,  “já não eram horas de se bater à porta das pessoas”…    
O vizinho fotógrafo era tão elegante quanto esquecido e demorava por isso, mais que semanas, meses, a trazer o dito rolo revelado. Quando o dia finalmente chegava era todo um misto de ansia alegria e solenidade… e apesar da longa e ansiosa espera, protelava o momento de abrir o envelope. No regresso a casa, envelope na mão apertada de quem como guarda um tesouro, fazia lentamente o percurso.

Chegada a casa, fazia qualquer tarefa pendente para que nada me atraiçoasse o momento.
Quando finalmente me sentava de corpo e alma livres, abria solenemente o envelope e degustava cada fotografia como que o melhor doce jamais provado. Às vezes cada rolo de fotografias, encerrava anos de memórias, porque revelar um rolo era muito caro e por isso só se fotografava em dias de festa ou momentos muito especiais. Reviver momentos longínquos de uma vida curta era um doce para os meus sentidos, por isso na minha infância, as fotografias tinham sabor, o doce sabor de reviver memórias felizes…

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